Piódão

Uma aldeia verdadeiramente afastada. Difícil acesso pela distância e pela estrada que sofre um estreitamento contínuo, lento e angustiante a ponto de acharmos que teríamos de voltar de ré quando não mais houvesse caminho pela frente. E tudo isso em vertiginoso sobe e desce pela serra, que a partir de determinado momento deixou de ter descidas para se restringir a uma subida cheia de curvas. Subida até densas nuvens que em poucos momentos de dissipação nos permitiam ver o despenhadeiro rente ao qual nosso carro avançava. A dúvida permanente de estarmos ou não no caminho certo; é possível ainda haver uma cidade no final desse caminho?

Do topo da montanha, entre nuvens, vislumbramos na vertente oposta a estrada que descia a serpentear entre curvas, rochas e uma vegetação escura e rasteira intensamente verde, feliz com a chuva fina que caia. Mal iniciada a descida da serra, um pouco mais animados com uma ligeira melhora da estrada, a confirmação de que a aventura não fora em vão. A nossa frente, no outro lado da encosta, aboletada em terraços de pedra entre o verde, a vila de Piódão. Tão pequena que era vista em sua inteireza. Tão escura naquele dia chuvoso que suas casas de xisto cobertas com lajes da mesma pedra – que ao sol devem brilhar como pequena joia que a aldeia é – mal se destacavam na paisagem.

Perdida na Serra do Açor, nas serras centrais de Portugal, preservada justamente por seu isolamento, Piódão tem apenas 178 habitantes e é considerada uma das vilas históricas de Portugal. Por isso mesmo, tem sido invadida por turistas. Descemos a serra felizes e aliviados até a entrada da vila, um largo repleto de carros, onde ao fundo uma igrejinha branca contrapunha-se à escuridão das casas molhadas. A entrada da cidade era ao mesmo tempo o ponto final para os automóveis. Dali só seria possível seguir a pé, uma vez que o amontoado de casas tem entre si apenas estreitos becos. No largo, algumas lojas e uns poucos ambulantes vendendo artesanato. Muita coisa em pele de ovelha, licores caseiros, biscoitos. Fazia frio. Tomamos um café e saímos para caminhar.

Passamos o final da tarde andando pelos estreitos becos. Tudo deserto. Nenhuma pessoa, nenhum animal. Janelas fechadas.  Na maioria das casas o único sinal de vida era um ocasional vaso ao lado da porta. Um presépio montado rente à parede externa de uma delas despertou nosso interesse. A sensação era de que ninguém passava por ali há dias. Em pouco mais de uma hora tudo havia sido percorrido. Durante este curto espaço de tempo a nítida impressão de estar em outro tempo perambulando entre prédios que já não deveriam estar ali. Irreais de tão antigos; relíquias preservadas das ruínas. Seriam quase ruínas? Alguns poucos o eram de fato.

Fora da vila um confortável hotel. Todo de pedra respeitando o estilo da aldeia, ofereceu-nos um amplo quarto, um porto à frente da lareira e um honesto jantar português. No dia seguinte, antes de partir, uma última visão sobre Piódão lembrou-me o presépio do Pipiripau conhecido na infância. Ambos uma realidade quase fantástica; o surreal a sua frente.

Antônio Paulo

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Comments
One Response to “Piódão”
  1. Lia Silva de Castilho disse:

    Gente,
    Essa mesma impressão eu tive em Marvão e também em Pompeia: parecia que todos tinham ido alí e já voltavam…O tempo todo enquanto eu caminhava ali eu ouvia internamente a música de Chico Buarque (que não sei o título) “não se afobe não que nada é para já, amores serão sempre amáveis. Futuros amantes quiçá se amarão sem saber do amor que um dia eu deixei para você”…Meus meninos têm a mesma impressão de Diamantina: mãe, o tempo nessa cidade passa mais lento…
    Abraços,
    Lia

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