Bragança

A isolada região de Trás-os-Montes, no extremo nordeste do país, é considerada o mais rural e intocado dos recantos de Portugal. Há tempos queria conhecê-la. A princípio atraído pela poesia do nome – e os portugueses são absolutamente poéticos com as palavras; com nomes de lugares e de vinhos então, nem se fala – e depois pela vontade de conhecer a cidade de Bragança – berço da dinastia de mesmo nome, que aqui reinou no período imperial brasileiro – que preserva as muralhas medievais ao redor da cidadela original.

Era inverno, amanhecia tarde, poucas horas de sol, aquele frio lá fora, viajávamos devagar, parando a cada interesse despertado. Tudo isso fez com que nossa ida até Bragança demorasse um dia inteiro. Chegamos lá já estava escuro. Por volta de oito horas, quando saímos para jantar, não se via uma alma nas ruas do centro. Noite gelada, cidade deserta. Como de costume, procuramos o restaurante meio ao léu. Mas como estávamos congelando, não pudemos demorar muito e entramos n’O Manel. Simpático e tradicional – comemos pratos típicos da região – ofereceu-nos o ambiente reconfortante de que precisávamos para encerrar nossa longa jornada.

No dia seguinte, que amanheceu todo azul e cheio de sol, fomos conhecer a cidade que não é grande. Na cidadela, bem preservada dentro das muralhas, há o castelo, a Igreja de Santa Maria, o pelourinho que tem por base uma das famosas porcas, muitas casinhas e uma construção curiosa, tida como o único prédio civil românico ainda existente em Portugal, a Domus Municipalis. Tem um estranho formato pentagonal com os lados desiguais. Para mim que adoro o românico, foi o ponto alto da visita. Dessa vez tivemos a sorte que José Saramago não teve, pois sua porta estava aberta. Possui um único e grande salão, especialmente bonito com o sol entrando através dos vários arcos de volta perfeita. Só por isso, Bragança já teria me conquistado. Mas há mais. No castelo há um museu interessante e andar sobre as muralhas é sempre uma oportunidade de viajar pelo passado. Fora delas há o casario antigo, com muitos becos, ladeiras e praças, e que – comumente acontece em Portugal – nos remete a Ouro Preto. Para os românticos, a Igreja de São Vicente, local do casamento secreto de D. Pedro e Inês de Castro, segundo a mais decantada lenda portuguesa.

Algo que me impressionou em Bragança não tem nenhuma ligação com seu passado histórico. A grande quantidade de novos e grandes prédios já prontos e em construção nas periferias da cidade. Pareceram-nos principalmente edifícios residenciais. Será um êxodo dos campesinos para a metrópole regional? Um renascimento da região financiado pelo afluxo de euros da Comunidade Européia? Não tivemos tempo para descobrir as causas desse crescimento. Esperamos apenas que seja um crescimento com racionalidade, que concilie passado e futuro, preservando o encanto do lugar.

Antônio Paulo

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